
Luiz Ruffato
Eles eram muitos cavalos
150 páginas
Boitempo Editorial 2001
111 páginas
Quadrante Editores 2006
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Resenha
Quando pegamos num livro não estamos preparados, quase nunca, para sermos levados à força para o bulício e a confusão de uma cidade. Livros, habitualmente, são coisas paradas, às quais entregamos, confiantemente, o nosso descanso. Mas, no entanto, alguns livros surgem na nossa vida exactamente para nos demonstrar o contrário. Um desses livros é Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato, recentemente lançado em Portugal pela Quadrante Editora.
Toda a acção deste livro se passa num só dia, o dia 9 de Maio de 2000, para ser mais exacto. A localização precisa da acção é-nos dada logo no início, embora logo adiante nos apercebamos de como essa indicação nos logra. São Paulo, dia 9 de Maio de 2000. Esta é uma grafia do tempo em que se escreviam cartas, um tempo em que dizer São Paulo, Lisboa ou Maputo, significava aos nossos cérebros uma secretária onde alguém se houvera sentado. Trazido para o contexto deste livro, uma informação que aparentemente nos deveria sossegar, vai-nos lançar numa espiral de acontecimentos da qual, a certa altura da experiência de leitor, parece-nos até impossível sair.
Em jacto, somos expostos a 69 pequenos textos, cada um deles expressando o que poderia ser um mínimo recorte de uma visão aérea da megalópole São Paulo. Em cada um desses textos podemos encontrar desde orações religiosas, cenas de amor e violência, ódio e paixão, seres que se completam e seres que nunca se compreendem. Imagine-se a experiência de um filme de uma vida a passar-nos diante dos olhos, em fast forward - assim será aquilo por que Luiz Ruffato nos tenta fazer passar, uma leitura onde nenhum copo de água ou garrafa de oxigénio nos poderá aliviar, porque este livro lê-se com a cabeça e não com os olhos, com os movimentos e não com as palavras.
Quando pegamos num livro, num livro como este, cuja aparência dócil da composição nos permite até pensar que o iremos dominar, não estamos nunca preparados para a experiência de leitura que ele nos permite. Trata-se, definitivamente, de um daqueles livros que deve ser lido de uma vez só, para ser sentido na sua total expressão de violência literária. É também essa uma forma de agir sobre o real - captá-lo de uma forma entrecortada para o poder demonstrar em toda a sua brutalidade. Eles eram muitos cavalos, mais que um livro, é uma experiência a não perder.
Luís Filipe Cristóvão
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