Resenha O livro Alguma prosa: ensaios sobre a literatura brasileira contemporânea –organizado por Giovanna Dealtry, Masé Lemos e Stefania Chiarelli – é uma tentativa de decifrar a prosa brasileira contemporânea na sua aparente facilidade. É o estudo deste enigma, sem se deixar seduzir completamente pelo entretenimento e pelo mercado, numa postura comprometida com a seriedade de sua tarefa.
O livro reúne 16 ensaios sobre ficção, claramente escolhidos com o objetivo de olhar alguns dos vários aspectos da complexa pluralidade de questões postas pela nova literatura.
A linha de estudos que seguem para os textos vê na literatura um meio para a mediação no modo de ver o mundo e nele estar, sendo que todo crítico literário, ao se debruçar sobre seus objetos, "narra também experiências e percursos próprios", como afirma uma das organizadoras.
É isso que, provavelmente, orienta a escolha dos autores analisados, na maioria produzindo a partir da década de 90, tal como os próprios ensaístas reunidos no livro. Embora o conjunto adquira um toque de geração, não se trata de trabalho de crítica ligeira; os ensaios, embora diversos na profundidade argumentativa, bem como sua organização, provêm da universidade, lugar que ainda exige questionamento e reflexão, mesmo nestes tempos de pressa e dúvida.
Afastando-se o puro entretenimento, colocam-se questões caras à prosa, como a relação entre ficção e realidade, o lugar do sujeito, o compromisso do autor ou o papel do narrador, que adquirem cores novas.
Desterritorialização, condições de exclusão, medo e solidão, problemas de identidade relacionados ao corpo e à vivência da sexualidade, situações-limites dadas pela violência urbana cruzam-se nas análises, que vão fundo nos textos dos escritores escolhidos.
Experiências como a de Budapeste, de Chico Buarque, ou dos contos de João Gilberto Noll, que refletem sobre o papel do autor nas sociedades contemporâneas.
Ou ainda a necessidade de criar "fluxos constantes" para romper o isolamento do sujeito, como tenta Amílcar Bettega; a ânsia do encontro consigo mesmo, no amor de uma mulher por outra, em Cíntia Moscovitch; a condição do negro, historicamente construída e vivenciada como memória de um "eu rasurado", em Conceição Evaristo ou em Ana Maria Gonçalves e seu "defeito de cor"; a inconcebível banalidade da violência em Patrícia Melo e Rubens Figueiredo; e o papel de livros e leituras na "biblioteca de Hatoum".
E é importante acrescentar que, embora a seleção recaia mais sobre autores do Rio, percebe-se o cuidado de percorrer todo o país, incluindo outras regiões.
Como se os ensaístas se percebessem gestados, sobretudo nas tensões dos grandes centros urbanos, mesmo expressando às vezes diferenças regionais nos espaços e tempos, esses autores tivessem a uni-los as mesmas angústias e medos, não só existenciais, mas também relativos aos limites da literatura enquanto possibilidade de traduzir uma realidade desde há muito quase inenarrável.
O que se pode transferir para os próprios ensaios: viceja em todos eles, em texto e subtexto, a consciência inquieta da impossibilidade de a crítica literária conseguir penetrar no âmago da literatura.
E talvez seja essa mesma consciência que faz de cada ensaio uma peça exploratória de agradável leitura, sem juízos finais, mas com a humildade de quem aceita e respeita a dificuldade do enigma, para não ser devorado sem sequer ter podido enfrentá-lo.
Na verdade, o grande enigma está na multiplicidade de aspectos nos quais uma linguagem ágil e fácil, de cunho jornalístico, traduz detalhes da realidade urbana de todos os dias ou manifestações do individualismo de um sujeito qualquer.
Tanto a cultura quanto a literatura de hoje traduzem um país melhor ou pior – dependendo do ângulo pelo qual se olhe – mas certamente bastante diverso, a partir do qual se vieram gestando outras sensibilidades, com outros olhares sobre o mundo e outras formas de representá-lo. Para alguns, já é um mundo pós-moderno, com todas as incertezas e divergências que esse termo pode suscitar. E para o qual entretenimento e mercado passaram a ser palavras de ordem.
O livro reúne 16 ensaios sobre ficção, claramente escolhidos com o objetivo de olhar alguns dos vários aspectos da complexa pluralidade de questões postas pela nova literatura.
A linha de estudos que seguem para os textos vê na literatura um meio para a mediação no modo de ver o mundo e nele estar, sendo que todo crítico literário, ao se debruçar sobre seus objetos, "narra também experiências e percursos próprios", como afirma uma das organizadoras.
É isso que, provavelmente, orienta a escolha dos autores analisados, na maioria produzindo a partir da década de 90, tal como os próprios ensaístas reunidos no livro. Embora o conjunto adquira um toque de geração, não se trata de trabalho de crítica ligeira; os ensaios, embora diversos na profundidade argumentativa, bem como sua organização, provêm da universidade, lugar que ainda exige questionamento e reflexão, mesmo nestes tempos de pressa e dúvida.
Afastando-se o puro entretenimento, colocam-se questões caras à prosa, como a relação entre ficção e realidade, o lugar do sujeito, o compromisso do autor ou o papel do narrador, que adquirem cores novas.
Desterritorialização, condições de exclusão, medo e solidão, problemas de identidade relacionados ao corpo e à vivência da sexualidade, situações-limites dadas pela violência urbana cruzam-se nas análises, que vão fundo nos textos dos escritores escolhidos.
Experiências como a de Budapeste, de Chico Buarque, ou dos contos de João Gilberto Noll, que refletem sobre o papel do autor nas sociedades contemporâneas.
Ou ainda a necessidade de criar "fluxos constantes" para romper o isolamento do sujeito, como tenta Amílcar Bettega; a ânsia do encontro consigo mesmo, no amor de uma mulher por outra, em Cíntia Moscovitch; a condição do negro, historicamente construída e vivenciada como memória de um "eu rasurado", em Conceição Evaristo ou em Ana Maria Gonçalves e seu "defeito de cor"; a inconcebível banalidade da violência em Patrícia Melo e Rubens Figueiredo; e o papel de livros e leituras na "biblioteca de Hatoum".
E é importante acrescentar que, embora a seleção recaia mais sobre autores do Rio, percebe-se o cuidado de percorrer todo o país, incluindo outras regiões.
Como se os ensaístas se percebessem gestados, sobretudo nas tensões dos grandes centros urbanos, mesmo expressando às vezes diferenças regionais nos espaços e tempos, esses autores tivessem a uni-los as mesmas angústias e medos, não só existenciais, mas também relativos aos limites da literatura enquanto possibilidade de traduzir uma realidade desde há muito quase inenarrável.
O que se pode transferir para os próprios ensaios: viceja em todos eles, em texto e subtexto, a consciência inquieta da impossibilidade de a crítica literária conseguir penetrar no âmago da literatura.
E talvez seja essa mesma consciência que faz de cada ensaio uma peça exploratória de agradável leitura, sem juízos finais, mas com a humildade de quem aceita e respeita a dificuldade do enigma, para não ser devorado sem sequer ter podido enfrentá-lo.
Na verdade, o grande enigma está na multiplicidade de aspectos nos quais uma linguagem ágil e fácil, de cunho jornalístico, traduz detalhes da realidade urbana de todos os dias ou manifestações do individualismo de um sujeito qualquer.
Tanto a cultura quanto a literatura de hoje traduzem um país melhor ou pior – dependendo do ângulo pelo qual se olhe – mas certamente bastante diverso, a partir do qual se vieram gestando outras sensibilidades, com outros olhares sobre o mundo e outras formas de representá-lo. Para alguns, já é um mundo pós-moderno, com todas as incertezas e divergências que esse termo pode suscitar. E para o qual entretenimento e mercado passaram a ser palavras de ordem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário